9th julho, 2010

Pesquisadora carioca garante que o Fado tem raiz afro-brasileira

Ana Crys  apresentau Work Shop sobre Fado em Lisboa

A carioca Ana Crys Tavares, produtora, assessora de imprensa e pesquisadora, esteve recentemente em Lisboa a convite da EGEAC e da Falsete Atividades Pedagógicas, para apresentar aos jovens participantes do COM´PAÇO III – Festival de Bandas Filarmônicas de Lisboa – parte de sua pesquisa sobre “A raiz afro-brasileira do fado”.

"Tem raiz afro-brasileira do Fado”.

Fado:Fusão entre o fandango ibérico e o lundu

Ana Crys disse que o tema é polêmico, principalmente pelo fato de a primeira manifestação  ter surgido como uma dança proveniente da fusão do fandango e do lundu (lundum) no século XVIII em solo brasileiro, mas que só foi documentada no início do século XIX. Um dos primeiros estudiosos sobre o fado no Brasil foi o romancista Mario de Andrade (1893-1945) que observou a descrição da dança no livro Memórias de um sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida), o qual retrata o dia a dia da sociedade do Rio de Janeiro, à época em que a Família Real Portuguesa residiu na cidade. A produtora falou ao Quadros-cultura.com, entre outros assuntos, do seu trabalho como produtora e a ligação entre Brasil e Portugal.

"A primeira fase do fado era associado a marginalidade"

QC – Ana, fala um pouco do teu trabalho como produtora e como tem feito a ligação entre Brasil e países europeus?

"O fado é um conjunto de danças encadeadas"

AC – Comecei meu trabalho na área musical na equipe de produção da primeira harpista do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Cristina Braga. De lá para cá já produzi shows de música brasileira, jazz, samba, bossa nova, música clássica e blues. Minha experiência com produção internacional começou  no ano passado, quando agendei shows para o guitarrista carioca Marcos Amorim em Lisboa e, para a cantora Lili Araujo, na Áustria. No início do ano apresentei o famoso grupo vocal MPB4 para integrar o catálogo da produtora MDK (Lisboa) e da Tupiniquim (Tóquio).

O importante não é só mandar o músico para o exterior, mas promover a troca de experiências com o público e, ampliar o conhecimento sobre o que há de novo na cena nacional.

QC – Em relação ao convite para vir a Lisboa, como aconteceu, qual o principal objetivo de sua vinda?

AC - No início deste ano, iniciei uma parceria com a Falsete Atividades Pedagógicas para realizar trabalhos  em Portugal. Luis e Mário (diretores da Falsete) comentaram sobre as Festas de Lisboa 2010 e me indicaram para a realizadora do evento, EGEAC. Eles aprovaram o meu perfil e me convidaram para acompanhar a produção do COM´PAÇO III – Festival de Bandas Filarmônicas de Lisboa.  Em conversa com Luis, comentei, dias depois, que estava pesquisando um tema interessante e polêmico – A raiz afro-brasileira do fado. Ele sugeriu que eu apresentasse o assunto, de maneira informal, aos jovens músicos amadores que iriam participar do evento.

Meu objetivo com a pesquisa é facilitar o intercâmbio de músicos portugueses no Brasil e poder ajudar a modificar a imagem cristalizada da música e cultura portuguesa.

"Intercâmbio musical entre Brasil e Portugal"

"...século XVIII, fadistas eram prostitutas"

QC – Em relação à raiz afro-brasileira do Fado. Qual foi à descoberta mais relevante?

AC - Ouvi falar sobre a influência afro-brasileira no fado há um ano. Na época pensei que fosse algum exagero, como um gene brasileiro na formação da tradicional música portuguesa urbana.? Resolvi apurar e, descobri que contra fatos (e fados) não há argumentos. Devo muito à Fundação de Cultura de Quissamã (Norte do Estado do Rio de Janeiro) que vem desenvolvendo um trabalho criterioso e sério sobre o tema. O que considero relevante nessa história toda, é o fato de um dos episódios mais interessantes do intercâmbio sonoro musical, entre Brasil e Portugal, ser ignorado por brasileiros e portugueses.

QC – Qual a parte mais inédita da raiz brasileira no Fado português?

AC - Para mim é a trajetória de como a dança (fusão entre o fandango ibérico e o lundu),  a princípio saltitante, ter-se tornado o emblema da identidade sonora portuguesa.

QC – Estes dias que esteve aqui em Lisboa, descobriu alguma informação que pudesse acrescentar em sua pesquisa?

"A Fundação Cultural de Quissamã (RJ) desenvolve pesquisa sobre as raises afro-brasileira no fado"

AC – A visita ao Museu do Fado e de lá obter informações de que a primeira fase do fado em Portugal ter sido associada a contextos sociais ligados à marginalidade, à transgressão e a partir de 1860, ter sido utilizado como importante veículo de comunicação.

QC – O Fado, dizem que é uma música somente para ouvir e jamais para dançar. Por acaso encontrou alguma informação diferente?

AC - Sim, se nós consideramos apenas o fado como a típica e consagrada canção portuguesa urbana, rica em improvisações na guitarra portuguesa e melismas mouriscas. Porém; no norte do estado do Rio de Janeiro, o fado é um conjunto de danças encadeadas e acompanhado por viola, pandeiro e um repentista, para conduzir a dança, tal qual a sua origem no século XVIII.

QC – Em relação aos instrumentos. Que tipo de instrumento compunha o Fado em sua origem e  como surgiu a viola portuguesa?

AC - Na origem do fado temos a viola, trazida para o Brasil com os primeiros açorianos por volta de 1677. Já a guitarra portuguesa, instrumento que é a cara do fado (risos) é oriunda da guitarra inglesa que foi introduzida em Portugal a partir das colônias inglesas de Lisboa e do porto. A notícia da utilização da guitarra inglesa no fado data de 1840. Até então, ela era exclusiva nos circulos da burguesia, da nobreza e acompanhava peças musicais clássicas.

QC – Hoje quem canta Fado é conhecido, como fadistas. Como surgiu este título?

"Está sendo lançando um documentário sobre o Fado de Quissamã-RJ"

AC – A denominação fadista é anterior a ligação da palavra fado (do latim factum – destino) à dança e, em seguida, à música. Em Portugal, fadistas eram tidos como “criminosos tolerados”, reconhecidos por usarem tatuagens (âncora, navios, flores, corações e outros emblemas amorosos e religiosos) entre o indicador e o polegar, braços e tronco.

"A denominação fadista é anterior a ligação da palavra fado"

No Brasil, na primeira metade do século XVIII, fadistas eram prostitutas, ou seja, mulheres condenadas a esse destino pessoal, a semelhança entre as fadistas e a dança foi observada no início do século XIX, pois a popularização da música começou pelas camadas pobres e de reputação duvidosa da sociedade.

QC – O que pretende fazer com a pesquisa, escrever um livro, realizar um documentário, etc.. ?

AC - Minha proposta é apenas informar, estimular o público para que conheça um dos momentos mais profícuos do intercâmbio musical entre Brasil e Portugal.

No Brasil, a Fundação Cultural de Quissamã desenvolve pesquisas criteriosas a esse respeito. O jornalista Romildo Guerrante está para publicar uma matéria rica sobre o assunto e o pesquisador português José Machado Pais está lançando um documentário sobre o Fado de Quissamã.

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15th abril, 2010

Brasil em destaque na 3ª edição do Peixe em Lisboa

Chefes da gastronomia brasileira são sucesso internacional

A 3ª edição do “Peixe em Lisboa”, um importante evento gastronómico anual, organizado pela Associação de Turismo de Lisboa, teve início sábado (10), no Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações, na capital portuguesa, e segue até 18 de Abril. O evento conta com a presença dos mais renomados nomes da gastronomia portuguesa e estrangeira.

Claude

Claude Troisgros: "O Brasil é um país rico em produtos gastronómicos naturais"

O Brasil é o destaque internacional deste ano, com seis Chefes de vários estados brasileiros, que trazem do outro lado do Atlântico as receitas com sabores e aromas tropicais – Alex Atala, Bel Coelho, Mara Salles, Tsuyoshi Murakami, Beto Pimentel e o francês, que se considera “franco-carioca”, Claude Troigros, residente no Brasil desde o final dos anos 70.

Degustação de "caviar de tapioca"

Claude fez sua apresentação no domingo, para um público bastante expressivo; apresentou duas receitas, incluindo o seu famoso “caviar de tapioca”. Após a apresentação falou a “quadros-cultura.com” que estava muito honrado pelo convite e de estar pela primeira vez representando oficialmente o Brasil num evento internacional: “Para mim é um momento especial, porque já participei de muitos eventos no mundo inteiro e continuo participando, mas como francês radicado no Brasil. Até me emociono em falar, porque agora, depois de trinta anos de trabalho, começo a fazer parte por nacionalidade de uma equipe brasileira. Agradeço muito ao Alex Atala, que está fazendo um trabalho muito bonito pela culinária no Brasil. Somos grandes amigos, ele me posiciona como o chefe mais brasileiro dos franceses. Isto tem sido muito bom. Há dois anos ele me fez uma homenagem à frente de 20 Chefes espanhóis de alto gabarito, apresentando-me como Chefe brasileiro. Isto foi muito importante para mim”, confessou Claude.

Galdino&Jhabu

Claude disse ainda que a riqueza de produtos gastronómicos brasileiros é imensa, mas destacaria dois: “Para mim, o produto que representa o Brasil em qualquer lugar do mundo, e que me impactou logo que cheguei lá, em 1979, foi o maracujá. Ele é incomparável a qualquer outro, por seu sabor simultaneamente ácido e doce. Outro que marca e define a culinária brasileira é o azeite de dendê, não o industrializado; falo do produto natural que tive a oportunidade de experimentar numa moqueca de peixe na casa de um pescador na Bahia”, disse Claude.

A presença brasileira na 3ª edição do “Peixe em Lisboa” também está representada através da música, pela dupla Galdino & Jhabu, que fazem do ambiente uma combinação perfeita de convívio, onde todos podem provar as mais deliciosas receitas ao som de bossa nova, jazz e samba, entre outras.

Chefe José Avillez: " Apresença dos chefes brasileiros é muito importante para nós"

O diretor do "Peixe em Lisboa" Duarte Calvão:"Mais uma edição com sucesso"

A gastronomia portuguesa em destaque através de vários restaurantes, compõe o cenário do certame. Entre eles o bicentenário Restaurante Tavares, com a mais jovem “estrela”, o Chefe José Avillez. A “quadros-cultura.com” Avillez disse estar muito satisfeito com a frequência de público logo nos primeiros dias: “Peixe em Lisboa repete o sucesso dos anos anteriores e, pelo que pude perceber, este ano a frequência, logo na abertura, já superou o número de pessoas do ano passado. A presença de vários Chefes brasileiros é sem dúvida muito interessante, bem como a visita do catalão Joan Roca, e nós, os portugueses de várias gerações, trabalhando juntos, mostrando o peixe de Portugal e a qualidade dos nossos produtos”.

O presidente da Associação de Turismo de Lisboa e da Câmara Municipal de Lisboa, (Prefeito) António Costa, acompanhado de sua esposa Fernanda, falou com entusiasmo do sucesso da iniciativa e dos pratos brasileiros que mais aprecia: “Já estive no Brasil várias vezes; a última foi em Salvador da Bahia. Comi lá a moqueca baiana, um dos meus pratos preferidos”.

António Costa: "Aprecio muito a culinária Brasileira!"

O diretor do evento, Duarte Calvão, disse que mais uma vez a festa da gastronomia portuguesa está comprovando que é um evento de sucesso: “Logo no primeiro dia, a frequência de visitantes foi o dobro do ano passado. O belo dia de sol ajudou muito as pessoas a vir curtir este momento gastronômico. E para nós é um grande prazer saber que o evento está sempre a crescer em número de visitantes a cada edição”.

Zira Cadaval:"Nossos doces não levam nenhuma espécie de corantes!"

O mercado gourmet é composto por uma grande variedade de produtos, entre eles cafés, chocolates, sorvetes, patês, azeites e deliciosas compotas caseiras, como as de Zira Cadaval, que nasceram numa pequena cozinha de sua casa para uma fábrica e estão conquistando seus clientes pela diversidade de sabores de doces naturais à base de frutas. Outro capítulo em destaque no “Peixe Lisboa” é a degustação dos melhores vinhos portugueses, das mais diversas regiões.

O evento conta ainda com um espaço dedicado às crianças dos 6 aos 10 anos de idade, onde são sensibilizadas por Chefes de cozinha para a importância de uma boa alimentação.

Os visitantes do “Peixe em Lisboa” têm a oportunidade de apreciar e adquirir as mais diversas iguarias até domingo (18).

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