18th março, 2010

Flávia Bittencourt em tournê pela Europa

Uma nordestina no velho continente

Flávia Bittencourt, uma jovem nordestina que deixou sua terra natal e um curso de farmácia numa universidade federal, para realizar um sonho que descobriu ainda no colegial: ser cantora profissional.

Flávia começou as primeiras apresentações em São Luís, Maranhão, onde residia com sua família. Mas logo percebeu que precisava se aperfeiçoar mais na profissão e mostrar seu canto ao maior número de pessoas possível. Em 2000, enchendo-se de coragem disse à família que ia mudar para a maior metrópole da América Latina – São Paulo.

Seguiu viagem sozinha, apenas acompanhada do sonho de fazer aquilo que mais gosta: cantar! Além do sonho e da bagagem, tinha o endereço de uma amiga com quem ia dividir uma casa.

Lá chegando, entrou para uma faculdade de musica, onde estudou canto erudito e popular. Mas logo teve de abandonar, devido às solicitações por suas apresentações em casas de espetáculo. Em 2005 gravou seu 1º CD, “Sentidos”, uma produção independente. Sua voz encorpada logo chamou a atenção da mídia e uma de suas interpretações, “Terra de Noel”, de Jozias Sobrinho, fez parte da trilha sonora de “América”, a popular novela da Tv Globo Brasil. “Sentidos” acabou por ser lançado pela gravadora Som Livre.

O pai de Flávia, apesar de desejar que a filha tivesse uma profissão por formação acadêmica em farmácia, falou da filha ao grande cantor, compositor e sanfoneiro Dominguinhos, que conheceu num congresso. O mestre da musica popular brasileira não esqueceu, e quando esteve numa apresentação em São Paulo com Flávia, logo descobriu a menina cantora de quem seu pai tão orgulhosamente havia falado.

Os dois artistas se tornaram grandes amigos, e este ano Flávia gravou o CD “Todo Domingos”, em homenagem ao mestre, de quem disse ter aprendido muito, com seu talento, simplicidade e simpatia.

E foi para o lançamento de “Todo Domingos” que Flávia, acompanhada de três excelentes músicos – Leandro Saramago (violão 7 cordas), Dudu Oliveira (flauta e bandolim) e Netinho (pandeiro e percussão) – veio à Europa, mostrar aqui, do outro lado do oceano, por que em seu país é considerada uma das mais talentosas revelações musicais.

Em sua estreia em Lisboa, foi entrevistada para a rádio e televisão, onde colocou em palco todo o seu talento e carisma nortenho, e fez belas apresentações, no Bar Restaurante Speakeasy, no Onda Jazz (com o percussionista angolano Ruca Rebordão) e no Chapitô, onde foi muito bem recebida por uma plateia que interagia com aplausos e até acompanhava Flávia nos refrães. Antes de uma destas apresentações, Flávia falou a quadros-cultura.com sobre sua trajetória musical:

Quadros-Cultura.com – Explica como uma menina da classe média maranhense vai morar sozinha em São Paulo e cantar na noite paulistana.
Flávia Bittencourt
– No início foi bem difícil convencer meus pais de que eu queria mesmo era ser cantora e não farmacêutica, como minha mãe. Queria estudar musica e seguir minha carreira de cantora. Minha mãe foi quem primeiro me apoiou. Falou com meu pai e convenceu-o de que era aquele o meu sonho e que era para me deixar ir morar em São Paulo.

QC – Em São Paulo como tudo aconteceu?
FB – Logo que cheguei, me matriculei numa faculdade de música. Mas quando comecei a me apresentar nos bares e nos teatros do SESC tive que deixar, porque os horários não davam para cantar e frequentar as aulas ao mesmo tempo e eu também precisava ganhar dinheiro para me manter.

QC – E o forró, como entrou para seu repertório musical?
FB – Eu sempre ouvia muito lá no Maranhão; como você sabe, nas festas juninas a gente ouve muito. E, quando fui fazer uma apresentação no Teatro Artur Azevedo, fiz uma pesquisa de músicos maranhenses: Jozias Sobrinho, João Teixeira e vários outros. Foi este trabalho que levei para São Paulo. Na verdade, eu já tinha esta tendência para cantar músicas regionais, e lá ficou mais forte ainda, porque bateu a saudade da minha terra.

QC – E o encontro com o Dominguinhos como aconteceu?
FB – Conheci o Dominguinhos em São Paulo, num show. Ele assistiu uma apresentação minha, gostou e me convidou para cantarmos uma música juntos. A partir daquele dia ficamos amigos. Gostei muito dele, não só como cantor, mas especialmente como ser humano; uma pessoa muito simples, humilde, muito humano; aprendi muito com ele, e daí resolvi gravar “Todo Domingos” em sua homenagem.

QC – O que a música de raiz representa para você?
FB – Para mim é como o próprio nome indica: fala das nossas raízes, do nosso dia-a-dia, como “Lamento Sertanejo” de Dominguinhos e Gil.

QC – E, para vir se apresentar aqui na Europa, você contou com algum apoio?
FB – Tive apoio do Estado do Maranhão. Fiz um projeto indicando os países onde ia me apresentar por aqui – Portugal, França, Itália e Bélgica – daí eles nos pagaram as estadias e as passagens.

QC – Como aconteceu o convite para apresentar seu trabalho aqui na Europa?
FB – Tudo começou em 2007, quando uma empresária francesa, Clélia Morali, tomou conhecimento do meu trabalho através de um cantor brasileiro, o Marcos Sacramento. Fui fazer uma divulgação do meu primeiro CD “Sentidos”, gostaram e agora estou de volta e me apresento dia 19 em Paris, 20 em Toulouse, 27 em Marselha, 30 em Toulon e dia 31 em Nice. Foi a partir deste convite que organizámos os outros concertos na Itália e Bélgica.

(fotos João Teixeira)
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19th fevereiro, 2010

Dona Canô, a simplicidade da fusão

Guitarra portuguesa com sotaque brasileiro

Iara Costa: "Dona Canô é um nome que transmite simplicidade e humildade"

Dona Canô, grupo musical formado pela brasileira Iara Costa e o português Bruno Fonseca, uma dupla luso-brasileira que apresenta um repertório musical com um balanço da Bossa Nova e a nostalgia do Fado. As experiências musicais dos artistas são amplas. Vão desde a música “erudita” ao jazz, passando por sonoridades africanas, “caprichos árabes” e uma profundidade soul.

Iara Costa veio da capital federal brasileira, Brasília, onde travou conhecimento com os músicos Diego Figueiredo, Hamilton de Holanda e Félix Júnior. A cantora assume a voz no projeto, revisitando, com elegância, temas populares brasileiros e tradicionais portugueses.

O toque de Bossa Nova vem da guitarra de Bruno Fonseca, que encontra nela uma sonoridade familiar. De referir alguns dos nomes de músicos com quem estudou: José Salgueiro, Edu Miranda, Pedro Madaleno e Mário Delgado.

Bruno Fonseca: "Eu nunca irei ser um brasileiro a tocar musica brasileira, nem a Iara vai ser uma portuguesa a cantar o Fado”

O nome Dona Canô, oriundo da Bahia, é uma homenagem à bela senhora centenária brasileira, mãe de dois grandes artistas: Caetano Veloso e Maria Betânia. A dupla explicou a quadros-cultura.com o porquê do nome: “Representa para nós uma simplicidade, associada às pessoas que trabalham conosco, porque temos tocado com músicos que não são simples, não são humildes, e nós não queríamos isso para nós e para o nosso projeto; queríamos pessoas à nossa volta que trabalhassem sobretudo pelo prazer da música, e a Iara sugeriu, porque não Dona Canô – é uma pessoa que transmite exatamente essa mensagem”, esclareceram Iara e Bruno.

Canô significa união. União é o que faz estes dois profissionais da música levarem alegria por onde passam, com sonoridades de fusão entre ritmos e com a ligação de uma voz brasileira e de um guitarrista luso. Uma ponte entre o ritmo sambado e uma vontade introspectiva do Fado.

Dona Canô é um projeto vivo, que contagia o público por onde passa. Não se limita ao formato original, em duo, fazendo parcerias com outros músicos e instrumentos, possibilitando assim uma participação da guitarra portuguesa, bandolim, contrabaixo ou percussão.

Gravação de primeiro CD autoral começa em Outubro

O grupo já se apresentou em várias casas lisboetas, entre elas o Onda Jazz, Chapitô e ao ar livre, numa tarde de domingo, no Jardim da Estrela. Após a apresentação, Iara e Bruno falaram a quadros-cultura.com de seus novos projetos: “Agora estamos a trabalhar na fase seguinte, que é criar os nossos próprios temas, criar a nossa própria linguagem. Só o fato de eu ser português e a Iara ser brasileira, já tem que se refletir na música, naquilo que fazemos. Obviamente que eu nunca irei ser um brasileiro a tocar musica brasileira, nem a Iara vai ser uma portuguesa a cantar o Fado”.

Dona Canô se preparam para gravar em Outubro seu primeiro CD, ainda sem título, uma produção independente que poderá chamar-se “Passando no Fim do Mundo”, uma das canções de sua própria autoria mais populares.

(fotos João Teixeira)

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