O baiano cantador e tocador de viola Xangai apresentou o concerto “Brasilerança” na terra dos seus ancestrais lusitanos
Com seu jeito bem despojado, bem nordestino, o baiano nascido em Vitoria da Conquista, Eugênio Avelino conhecido também por Xangai – nome que ganhou por trabalhar vários anos numa soverteria de sua família: A Xangai. Ganhador do prêmio Sharpe em 1998 com a música “Nois é Jeca Mais é Joia” (Iraildes da Cruz), é também um dos principais cantadores e violeiros do Brasil. Gravou seu primeiro disco, Acontecimento, em 1975 (CBS), seguido de mais de seis e um DVD Eucalol (2006 – Kuarup). No seu repertório avultam as canções nordestinas, de raiz popular, tais como xote, baiões, forros, cocos, repentes, canções românticas e óperas do nordeste. Mantém uma personalidade cultural única, forte e bem decidida, não se rendendo aos interesses da mídia nem às amarras propostas pela indústria fonográfica.
Xangai nos recebeu um dia antes de sua apresentação na Culturgest, espaço cultural de renome lisboeta, acompanhado de seu parceiro musical de há mais de oito anos, Fabrício Rios, na sala de visita de um hotel em Lisboa.
Logo que começamos nossa conversa como ele disse que preferia não “rotular”, foi dizendo: “Eu não sou cantor, sou cantador” – declarou. Para Eugênio Avelino, ou simplesmente Xangai, existe uma grande diferença entre um cantador e um cantor. De acordo com seu ponto de vista, esta diferença vai além de uma simples questão morfológica. Cantador é aquele que canta música porque gosta, exprime sua arte de forma verdadeira, de dentro para fora, sem concessões às modas. – “ O cantor é aquele que canta o que alguém manda cantar, é um produto da mídia; canta por dinheiro; só grava aquilo que o mercado acha que vai render altos valores numéricos”, disse.
Durante a nossa longa e divertida conversa, Xangai foi falando, entre outros assuntos, de seu percurso artístico que conta com mais de trinta anos de profissão e uma vasta discografia. Ora falava; ora cantava e recitava versos; falou dos seus dedos tortos que compara às pernas de Mané Garrincha; disse que seus dedos, apesar de tortos, tocam tão bem violas quanto Garrincha jogava futebol. Também expressou sua opinião sobre a cultura brasileira. De acordo com ele, a palavra “cultura” no Brasil se tornou algo extremamente vulgar, perdeu o sentido. Disse ainda, “é terrível ouvir o que toca nas rádios do nosso país hoje. É uma espécie de clone do axé do sertanejo e por ai vai… música mesmo, de verdade, não ouço nas rádios, – tipo João do Vale, João Gilberto”, completa.
Também lamentou o fechamento da gravadora carioca Kuarup, na qual, ao longo de sua carreira musical gravou vários discos. – “Fechou porque não teve ajuda nenhuma do governo… se fosse um banco, certamente teria sido diferente”. Pergunto se ele, como um dos interessados no assunto, teria procurado seu conterrâneo Gilberto Gil, Ministro da Cultura, no inicio da crise na gravadora. – “Tentei várias vezes uma audiência com o Senhor Ministro da Cultura, Gilberto Gil, mas nenhuma vez fui atendido…”, disse.
Em relação a sua maneira única de se apresentar por onde passa, sem um roteiro pré-definido, perguntei como faria aqui na Europa, se tratando de uma cultura diferente; disse que iria fazer apresentação como sempre faz: – “Vou olhar o público, e daí tudo pode acontecer. Posso talvez começar recitando um verso (risos)” – completa – “to falando hoje. Amanhã não sei, se vou iniciar assim ou não”.
O cantador atravessou o oceano Atlântico pela terceira vez, mas pela primeira mostra sua habilidade musical ao povo português, de quem disse gostar e muito. Já esteve no velho continente na década de oitenta, se apresentou em algumas cidades do sul da França e há dois anos esteve em Londres a convite da embaixada do Brasil no país. De acordo com Xangai, deixou saudades. E por isto seguiu para lá, após o concerto em Lisboa, onde fará mais quatro apresentações na capital britânica.
Sexta feira, (5) – o grande momento chegou para primeira apresentação de Xangai aos “irmãos” portugueses no auditório da Culturgest. Uma platéia curiosa aguardava o brasileiro para realizar o concerto “Brasilerança”. Apagam-se as luzes no auditório; em seguida as cortinas do palco se abrem e surge Xangai com seu chapéu branco e sua viola. E como havia prometido na entrevista, deu inicio ao concerto recitando um poema a solo “O Autor da Natureza” (Ivanildo Vila Nova). Apresentação seguiu em tom intimista e em cumplicidade com o público sempre acompanhado do seu parceiro profissional Fabrício Rios que o a acompanhou tocando bandolim.
O repertório musical do concerto foi composto além dos versos, por várias canções de autoria de Avelino e outros de compositores brasileiros como Elomar, (Curva do Rio) primo de Xangai e considerado por ele um dos melhores cantores do Brasil. Em homenagem a platéia portuguesa interpretou o bolero “Fica Comigo Esta Noite” do saudoso português Adelino Moreira, nascido na cidade do Porto que imigrou com seus pais para o Brasil com um ano de idade.
O concertou contou ainda com a participação especial de dois músicos brasileiros que residem em Lisboa: o pernambucano Alípio C. Neto (sax) e o paulista Luiz Moreto (violino).
Ao termino da apresentação o cantador foi aplaudido de pé e com seu jeito impar presenteou a platéia recitando mais um poema.
Deixou saudades!
(fotos João Teixeira)




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