12th julho, 2010

Roda de Choro de Lisboa anima as noites de Alfama

Às terças-feiras, Choro alegra o centenário Lusitana Clube

Chamam-se Roda de Choro de Lisboa. Um quinteto luso-franco-brasileiro, que há mais de dois anos, animam no Lusitano Clube em Alfama, todas às terças-feiras, a partir das 22h30, duas centenas de dançarinos e admiradores do Chorinho, que de choro, só tem mesmo o nome, pois o quinteto leva alegria a todos que lá comparecem.

Rui Valente:"O Choro veio do Brasil para alegrar o coração dos portugueses"

Barriga: "O Choro é parte de minha cultura"

O grupo é liderado pelos portugueses; Carlos Lopes “Bisnaga” -- (acordeão e direção musical), Nuno Gamboa (violão sete cordas e direção artística), os brasileiros; Eduardo Miranda (bandolim), Alexandre Santos “Barriga”  (percussão) e o francês, Etienne Lamaison (clarinete). O quinteto completa do trio cultural de Alfama, onde é possível curtir no início das escadarias o Jazz e, logo à direita da mesma rua, o Fado. “Há divertimento para todos os gostos”,  disse o empresário, Rui Valente ao Quadros-cultura.com. “Aqui neste pequeno espaço de Alfama temos um autêntico trio cultural, Jazz, Choro e Fado. Freqüento o Lusitano Clube há bastante tempo e desde que descobri apresentação da Roda de Choro aqui às terças-feiras, venho sempre, pois acredito que a música instrumental é a essência da musica brasileira”. Rui acrescentou  ainda que o Choro veio do Brasil para alegrar o coração dos portugueses.
Para o integrante do grupo, o brasileiro residente em Portugal há 17 anos, Alexandre Santos “Barriga” o Choro é parte da sua cultura, é uma música que representa bem o seu país.

Miguel Sermão: "O Choro é uma língua de união"

Guida Guerra:"Temos aulas de dança aqui e depois colocamos em prática aqui mesmo"

São diversos os freqüentadores do histórico Lusitana Clube e fãs da Roda de Choro e todos deleitam-se em elogios à casa e ao quinteto. O actor angolano, Miguel Sermão, disse que a Roda de Choro de Lisboa promove intercâmbio cultural entre as pessoas.  “Aqui é um local de encontro, onde as pessoas que normalmente, não se falam e nem se vêem no dia-a-dia, se encontram aqui. P’ra mim o Choro é uma língua de união, sou fã deste grupo há muito tempo, sou fã da cultura brasileira”. Declarou Miguel ao Quadros-cultura.com.

O Lusitano Clube também é um espaço onde se aprende a dançar com o professor Luiz e, nas terças-feiras, alunos e alunas põem  em  pratica o que aprenderam, como acontece com a aluna, Guida Guerra que aprendeu a dançar diversas modalidades, entre elas, samba, gafieira, swing  e forró. “Temos aulas; terças e quinta-feira e depois colocamos em prática o que aprendemos aqui na apresentação da Roda de Chora”.

O “choro” diz-se ter origem nos subúrbios do Rio de Janeiro, principalmente após a abolição da escravatura no Brasil em 1850, com a influências da música e instrumentos forasteiros e da reforma urbana. Não é possível determinar a que categoria musical pertence o choro, uma vez que se trata de um som devéras único.

Dezenas de pessoas lotam o salão de dança

Característico do ritmo, o quinteto gera uma mood de um mundo musical, por vezes intenso, por vezes sentimental, graças à sensabilidade de cada um dos seus músicos. Eles conseguem, não só manter um alto nível de sofisticação, como também um verdadeiro senso de prazer. Ao contrário do que o nome sugere, o choro, gera uma ritmo agitado e alegre. Além disso, requer uma elevada técnica, que só músicos estudiosos podem alcançar.

Roda de Choro de Lisboa gravou o seu primeiro disco “Choro Malandrinho”, no qual, interpretam composições de Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Waldyr Azevedo. Melodias de outros tempos que nos fazem bater o pé e dançar com alegria.

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9th julho, 2010

Pesquisadora carioca garante que o Fado tem raiz afro-brasileira

Ana Crys  apresentau Work Shop sobre Fado em Lisboa

A carioca Ana Crys Tavares, produtora, assessora de imprensa e pesquisadora, esteve recentemente em Lisboa a convite da EGEAC e da Falsete Atividades Pedagógicas, para apresentar aos jovens participantes do COM´PAÇO III – Festival de Bandas Filarmônicas de Lisboa – parte de sua pesquisa sobre “A raiz afro-brasileira do fado”.

"Tem raiz afro-brasileira do Fado”.

Fado:Fusão entre o fandango ibérico e o lundu

Ana Crys disse que o tema é polêmico, principalmente pelo fato de a primeira manifestação  ter surgido como uma dança proveniente da fusão do fandango e do lundu (lundum) no século XVIII em solo brasileiro, mas que só foi documentada no início do século XIX. Um dos primeiros estudiosos sobre o fado no Brasil foi o romancista Mario de Andrade (1893-1945) que observou a descrição da dança no livro Memórias de um sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida), o qual retrata o dia a dia da sociedade do Rio de Janeiro, à época em que a Família Real Portuguesa residiu na cidade. A produtora falou ao Quadros-cultura.com, entre outros assuntos, do seu trabalho como produtora e a ligação entre Brasil e Portugal.

"A primeira fase do fado era associado a marginalidade"

QC – Ana, fala um pouco do teu trabalho como produtora e como tem feito a ligação entre Brasil e países europeus?

"O fado é um conjunto de danças encadeadas"

AC – Comecei meu trabalho na área musical na equipe de produção da primeira harpista do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Cristina Braga. De lá para cá já produzi shows de música brasileira, jazz, samba, bossa nova, música clássica e blues. Minha experiência com produção internacional começou  no ano passado, quando agendei shows para o guitarrista carioca Marcos Amorim em Lisboa e, para a cantora Lili Araujo, na Áustria. No início do ano apresentei o famoso grupo vocal MPB4 para integrar o catálogo da produtora MDK (Lisboa) e da Tupiniquim (Tóquio).

O importante não é só mandar o músico para o exterior, mas promover a troca de experiências com o público e, ampliar o conhecimento sobre o que há de novo na cena nacional.

QC – Em relação ao convite para vir a Lisboa, como aconteceu, qual o principal objetivo de sua vinda?

AC - No início deste ano, iniciei uma parceria com a Falsete Atividades Pedagógicas para realizar trabalhos  em Portugal. Luis e Mário (diretores da Falsete) comentaram sobre as Festas de Lisboa 2010 e me indicaram para a realizadora do evento, EGEAC. Eles aprovaram o meu perfil e me convidaram para acompanhar a produção do COM´PAÇO III – Festival de Bandas Filarmônicas de Lisboa.  Em conversa com Luis, comentei, dias depois, que estava pesquisando um tema interessante e polêmico – A raiz afro-brasileira do fado. Ele sugeriu que eu apresentasse o assunto, de maneira informal, aos jovens músicos amadores que iriam participar do evento.

Meu objetivo com a pesquisa é facilitar o intercâmbio de músicos portugueses no Brasil e poder ajudar a modificar a imagem cristalizada da música e cultura portuguesa.

"Intercâmbio musical entre Brasil e Portugal"

"...século XVIII, fadistas eram prostitutas"

QC – Em relação à raiz afro-brasileira do Fado. Qual foi à descoberta mais relevante?

AC - Ouvi falar sobre a influência afro-brasileira no fado há um ano. Na época pensei que fosse algum exagero, como um gene brasileiro na formação da tradicional música portuguesa urbana.? Resolvi apurar e, descobri que contra fatos (e fados) não há argumentos. Devo muito à Fundação de Cultura de Quissamã (Norte do Estado do Rio de Janeiro) que vem desenvolvendo um trabalho criterioso e sério sobre o tema. O que considero relevante nessa história toda, é o fato de um dos episódios mais interessantes do intercâmbio sonoro musical, entre Brasil e Portugal, ser ignorado por brasileiros e portugueses.

QC – Qual a parte mais inédita da raiz brasileira no Fado português?

AC - Para mim é a trajetória de como a dança (fusão entre o fandango ibérico e o lundu),  a princípio saltitante, ter-se tornado o emblema da identidade sonora portuguesa.

QC – Estes dias que esteve aqui em Lisboa, descobriu alguma informação que pudesse acrescentar em sua pesquisa?

"A Fundação Cultural de Quissamã (RJ) desenvolve pesquisa sobre as raises afro-brasileira no fado"

AC – A visita ao Museu do Fado e de lá obter informações de que a primeira fase do fado em Portugal ter sido associada a contextos sociais ligados à marginalidade, à transgressão e a partir de 1860, ter sido utilizado como importante veículo de comunicação.

QC – O Fado, dizem que é uma música somente para ouvir e jamais para dançar. Por acaso encontrou alguma informação diferente?

AC - Sim, se nós consideramos apenas o fado como a típica e consagrada canção portuguesa urbana, rica em improvisações na guitarra portuguesa e melismas mouriscas. Porém; no norte do estado do Rio de Janeiro, o fado é um conjunto de danças encadeadas e acompanhado por viola, pandeiro e um repentista, para conduzir a dança, tal qual a sua origem no século XVIII.

QC – Em relação aos instrumentos. Que tipo de instrumento compunha o Fado em sua origem e  como surgiu a viola portuguesa?

AC - Na origem do fado temos a viola, trazida para o Brasil com os primeiros açorianos por volta de 1677. Já a guitarra portuguesa, instrumento que é a cara do fado (risos) é oriunda da guitarra inglesa que foi introduzida em Portugal a partir das colônias inglesas de Lisboa e do porto. A notícia da utilização da guitarra inglesa no fado data de 1840. Até então, ela era exclusiva nos circulos da burguesia, da nobreza e acompanhava peças musicais clássicas.

QC – Hoje quem canta Fado é conhecido, como fadistas. Como surgiu este título?

"Está sendo lançando um documentário sobre o Fado de Quissamã-RJ"

AC – A denominação fadista é anterior a ligação da palavra fado (do latim factum – destino) à dança e, em seguida, à música. Em Portugal, fadistas eram tidos como “criminosos tolerados”, reconhecidos por usarem tatuagens (âncora, navios, flores, corações e outros emblemas amorosos e religiosos) entre o indicador e o polegar, braços e tronco.

"A denominação fadista é anterior a ligação da palavra fado"

No Brasil, na primeira metade do século XVIII, fadistas eram prostitutas, ou seja, mulheres condenadas a esse destino pessoal, a semelhança entre as fadistas e a dança foi observada no início do século XIX, pois a popularização da música começou pelas camadas pobres e de reputação duvidosa da sociedade.

QC – O que pretende fazer com a pesquisa, escrever um livro, realizar um documentário, etc.. ?

AC - Minha proposta é apenas informar, estimular o público para que conheça um dos momentos mais profícuos do intercâmbio musical entre Brasil e Portugal.

No Brasil, a Fundação Cultural de Quissamã desenvolve pesquisas criteriosas a esse respeito. O jornalista Romildo Guerrante está para publicar uma matéria rica sobre o assunto e o pesquisador português José Machado Pais está lançando um documentário sobre o Fado de Quissamã.

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