
Ana Crys apresentau Work Shop sobre Fado em Lisboa
A carioca Ana Crys Tavares, produtora, assessora de imprensa e pesquisadora, esteve recentemente em Lisboa a convite da EGEAC e da Falsete Atividades Pedagógicas, para apresentar aos jovens participantes do COM´PAÇO III – Festival de Bandas Filarmônicas de Lisboa – parte de sua pesquisa sobre “A raiz afro-brasileira do fado”.

"Tem raiz afro-brasileira do Fado”.

Fado:Fusão entre o fandango ibérico e o lundu
Ana Crys disse que o tema é polêmico, principalmente pelo fato de a primeira manifestação ter surgido como uma dança proveniente da fusão do fandango e do lundu (lundum) no século XVIII em solo brasileiro, mas que só foi documentada no início do século XIX. Um dos primeiros estudiosos sobre o fado no Brasil foi o romancista Mario de Andrade (1893-1945) que observou a descrição da dança no livro Memórias de um sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida), o qual retrata o dia a dia da sociedade do Rio de Janeiro, à época em que a Família Real Portuguesa residiu na cidade. A produtora falou ao Quadros-cultura.com, entre outros assuntos, do seu trabalho como produtora e a ligação entre Brasil e Portugal.

"A primeira fase do fado era associado a marginalidade"
QC – Ana, fala um pouco do teu trabalho como produtora e como tem feito a ligação entre Brasil e países europeus?

"O fado é um conjunto de danças encadeadas"
AC – Comecei meu trabalho na área musical na equipe de produção da primeira harpista do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Cristina Braga. De lá para cá já produzi shows de música brasileira, jazz, samba, bossa nova, música clássica e blues. Minha experiência com produção internacional começou no ano passado, quando agendei shows para o guitarrista carioca Marcos Amorim em Lisboa e, para a cantora Lili Araujo, na Áustria. No início do ano apresentei o famoso grupo vocal MPB4 para integrar o catálogo da produtora MDK (Lisboa) e da Tupiniquim (Tóquio).
O importante não é só mandar o músico para o exterior, mas promover a troca de experiências com o público e, ampliar o conhecimento sobre o que há de novo na cena nacional.
QC – Em relação ao convite para vir a Lisboa, como aconteceu, qual o principal objetivo de sua vinda?
AC - No início deste ano, iniciei uma parceria com a Falsete Atividades Pedagógicas para realizar trabalhos em Portugal. Luis e Mário (diretores da Falsete) comentaram sobre as Festas de Lisboa 2010 e me indicaram para a realizadora do evento, EGEAC. Eles aprovaram o meu perfil e me convidaram para acompanhar a produção do COM´PAÇO III – Festival de Bandas Filarmônicas de Lisboa. Em conversa com Luis, comentei, dias depois, que estava pesquisando um tema interessante e polêmico – A raiz afro-brasileira do fado. Ele sugeriu que eu apresentasse o assunto, de maneira informal, aos jovens músicos amadores que iriam participar do evento.
Meu objetivo com a pesquisa é facilitar o intercâmbio de músicos portugueses no Brasil e poder ajudar a modificar a imagem cristalizada da música e cultura portuguesa.

"Intercâmbio musical entre Brasil e Portugal"

"...século XVIII, fadistas eram prostitutas"
QC – Em relação à raiz afro-brasileira do Fado. Qual foi à descoberta mais relevante?
AC - Ouvi falar sobre a influência afro-brasileira no fado há um ano. Na época pensei que fosse algum exagero, como um gene brasileiro na formação da tradicional música portuguesa urbana.? Resolvi apurar e, descobri que contra fatos (e fados) não há argumentos. Devo muito à Fundação de Cultura de Quissamã (Norte do Estado do Rio de Janeiro) que vem desenvolvendo um trabalho criterioso e sério sobre o tema. O que considero relevante nessa história toda, é o fato de um dos episódios mais interessantes do intercâmbio sonoro musical, entre Brasil e Portugal, ser ignorado por brasileiros e portugueses.
QC – Qual a parte mais inédita da raiz brasileira no Fado português?
AC - Para mim é a trajetória de como a dança (fusão entre o fandango ibérico e o lundu), a princípio saltitante, ter-se tornado o emblema da identidade sonora portuguesa.
QC – Estes dias que esteve aqui em Lisboa, descobriu alguma informação que pudesse acrescentar em sua pesquisa?

"A Fundação Cultural de Quissamã (RJ) desenvolve pesquisa sobre as raises afro-brasileira no fado"
AC – A visita ao Museu do Fado e de lá obter informações de que a primeira fase do fado em Portugal ter sido associada a contextos sociais ligados à marginalidade, à transgressão e a partir de 1860, ter sido utilizado como importante veículo de comunicação.
QC – O Fado, dizem que é uma música somente para ouvir e jamais para dançar. Por acaso encontrou alguma informação diferente?
AC - Sim, se nós consideramos apenas o fado como a típica e consagrada canção portuguesa urbana, rica em improvisações na guitarra portuguesa e melismas mouriscas. Porém; no norte do estado do Rio de Janeiro, o fado é um conjunto de danças encadeadas e acompanhado por viola, pandeiro e um repentista, para conduzir a dança, tal qual a sua origem no século XVIII.
QC – Em relação aos instrumentos. Que tipo de instrumento compunha o Fado em sua origem e como surgiu a viola portuguesa?
AC - Na origem do fado temos a viola, trazida para o Brasil com os primeiros açorianos por volta de 1677. Já a guitarra portuguesa, instrumento que é a cara do fado (risos) é oriunda da guitarra inglesa que foi introduzida em Portugal a partir das colônias inglesas de Lisboa e do porto. A notícia da utilização da guitarra inglesa no fado data de 1840. Até então, ela era exclusiva nos circulos da burguesia, da nobreza e acompanhava peças musicais clássicas.
QC – Hoje quem canta Fado é conhecido, como fadistas. Como surgiu este título?

"Está sendo lançando um documentário sobre o Fado de Quissamã-RJ"
AC – A denominação fadista é anterior a ligação da palavra fado (do latim factum – destino) à dança e, em seguida, à música. Em Portugal, fadistas eram tidos como “criminosos tolerados”, reconhecidos por usarem tatuagens (âncora, navios, flores, corações e outros emblemas amorosos e religiosos) entre o indicador e o polegar, braços e tronco.

"A denominação fadista é anterior a ligação da palavra fado"
No Brasil, na primeira metade do século XVIII, fadistas eram prostitutas, ou seja, mulheres condenadas a esse destino pessoal, a semelhança entre as fadistas e a dança foi observada no início do século XIX, pois a popularização da música começou pelas camadas pobres e de reputação duvidosa da sociedade.
QC – O que pretende fazer com a pesquisa, escrever um livro, realizar um documentário, etc.. ?
AC - Minha proposta é apenas informar, estimular o público para que conheça um dos momentos mais profícuos do intercâmbio musical entre Brasil e Portugal.
No Brasil, a Fundação Cultural de Quissamã desenvolve pesquisas criteriosas a esse respeito. O jornalista Romildo Guerrante está para publicar uma matéria rica sobre o assunto e o pesquisador português José Machado Pais está lançando um documentário sobre o Fado de Quissamã.
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